A cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, vive um cenário alarmante no setor da saúde pública: profissionais de enfermagem vêm denunciando uma série de problemas que afetam diretamente a qualidade da assistência prestada à população e a saúde física e mental dos próprios trabalhadores. As principais queixas envolvem precarização das condições de trabalho, sobrecarga de funções e casos crescentes de violência contra os profissionais dentro das unidades de saúde.
Nos últimos meses, entidades representativas da categoria, como o Sindicato dos Trabalhadores em Saúde de Juiz de Fora e Região (Sintsaúde), têm realizado manifestações públicas, denúncias formais e até solicitado o apoio do Ministério Público e da Defensoria Pública para intervir na situação. Segundo o sindicato, as condições de trabalho chegaram a um ponto crítico, colocando em risco tanto os profissionais quanto os pacientes.
Falta de estrutura e insumos básicos
De acordo com relatos de enfermeiros e técnicos de enfermagem atuantes na rede pública municipal, falta de materiais básicos, como luvas, seringas, termômetros e medicamentos essenciais, é uma realidade cotidiana em diversas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos postos da Estratégia Saúde da Família (ESF). Há ainda denúncias de equipamentos quebrados e ausência de manutenção em estruturas físicas das unidades, como vazamentos, infiltrações, salas sem ventilação e mobiliário danificado.
Essa falta de estrutura impacta diretamente a segurança e a eficácia dos atendimentos. Em muitos casos, os próprios profissionais relatam ter que improvisar soluções para continuar prestando o cuidado necessário aos pacientes, o que gera desgaste físico e emocional.
Cargas horárias excessivas e acúmulo de funções
Outro ponto crítico relatado pelos trabalhadores é a sobrecarga de trabalho. Devido à falta de pessoal, muitos profissionais precisam assumir funções além das suas atribuições legais, acumulando atividades de outros colegas e se desdobrando para dar conta da demanda crescente.
Em algumas unidades de saúde, um único enfermeiro chega a ser responsável por setores inteiros, como sala de medicação, curativos, triagem e observação, o que compromete a segurança do paciente e a qualidade da assistência prestada. A falta de dimensionamento adequado das equipes, aliada à alta rotatividade e ao número elevado de afastamentos por questões de saúde mental, tem agravado ainda mais a crise.
Segundo dados preliminares divulgados pelo sindicato, mais de 60% dos profissionais de enfermagem relatam sintomas de exaustão, insônia, crises de ansiedade e depressão — problemas que se agravaram desde a pandemia de COVID-19 e continuam impactando a categoria até hoje.
Casos de violência e ameaças
Além das condições estruturais e da sobrecarga, os profissionais denunciam um aumento significativo de casos de violência física e verbal nas unidades de saúde, principalmente em UPAs e emergências hospitalares. Os trabalhadores afirmam que, frequentemente, são alvo de ameaças, agressões verbais, empurrões e até tentativas de agressão física, principalmente em momentos de maior tensão, como longas esperas por atendimento ou falta de vagas em leitos hospitalares.
Em alguns casos, os profissionais precisaram ser afastados após sofrerem episódios traumáticos durante o expediente. A ausência de segurança adequada nas unidades e a falta de protocolos eficazes para lidar com situações de risco agravam a vulnerabilidade da equipe.
Pronunciamento das autoridades
Procurada pela imprensa, a Secretaria Municipal de Saúde de Juiz de Fora afirmou, por meio de nota, que reconhece a existência de desafios na rede pública e que vem trabalhando para resolver os problemas apontados pelos profissionais de enfermagem. A pasta informou que estão em andamento licitações para aquisição de insumos e contratação de novos profissionais, além de ações para fortalecer a segurança nas unidades de saúde, como a presença de agentes de vigilância.
Contudo, representantes da categoria afirmam que as medidas anunciadas ainda não surtiram efeito prático e cobram mais agilidade e compromisso da gestão pública. “Estamos lutando pelo mínimo: condições dignas de trabalho e respeito pela nossa profissão. O colapso da enfermagem é também o colapso da saúde pública”, declarou uma enfermeira que preferiu não se identificar por medo de represálias.
Mobilização e atos públicos
Diante do agravamento do cenário, os profissionais de enfermagem de Juiz de Fora têm se mobilizado por meio de atos públicos, paralisações e audiências públicas na Câmara Municipal. O objetivo é sensibilizar a sociedade sobre a gravidade da situação e pressionar os gestores para que adotem medidas concretas e imediatas.
“Não estamos pedindo privilégios, estamos exigindo condições mínimas para exercer nossa função com segurança. Quem sofre não somos apenas nós, mas toda a população que depende do SUS”, afirmou o presidente do Sintsaúde, durante um protesto realizado na porta da UPA Norte.
Além disso, está sendo organizada uma campanha estadual com apoio do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) para mapear os pontos críticos nas unidades de saúde de Juiz de Fora e levar o caso a instâncias superiores, incluindo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Ministério da Saúde.
O impacto na saúde pública
A crise vivida pelos profissionais de enfermagem em Juiz de Fora é mais um reflexo da fragilidade do sistema público de saúde em várias regiões do país. Quando os profissionais que estão na linha de frente do cuidado adoecem ou são desrespeitados, toda a cadeia de atendimento entra em colapso.
A luta da enfermagem por condições dignas é, sobretudo, uma luta pela qualidade da assistência à população, pela valorização do SUS e pelo reconhecimento de uma categoria que foi essencial durante a pandemia e continua sendo o pilar do sistema de saúde brasileiro.
A sociedade civil, os gestores públicos e os órgãos de fiscalização e controle precisam agir com urgência, garantindo não apenas respostas imediatas, mas também políticas estruturais de valorização, segurança e bem-estar dos profissionais de enfermagem.




